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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Análise Obra Tomás Antonio Gonzaga





Lira I 


Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda não está cortado;
os Pastores que habitam este monte
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste
nem canto letra, que não seja minha.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil Pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil Pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!
(...)

Publicado no livro Marília de Dirceu: Parte I (1792).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5)

Lira III 


Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia,
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos,
queimar as capoeiras inda novas,
servir de adubo à terra a fértil cinza,
lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes
das secas folhas do cheiroso fumo;
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumes de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.

Lerás em alta voz, a imagem bela;
eu, vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo
o cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
que tens quem leve à mais remota idade
a tua formosura.

Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5)

Lira XXIII 

Não praguejes, Marília, não praguejes
a justiceira mão que lança os ferros;
não traz debalde a vingadora espada;
deve punir os erros.

Virtudes de Juiz, virtudes de homem
as mãos se deram e em seu peito moram.
Manda prender ao Réu, austera a boca,
porém seus olhos choram.

Se à inocência denigre a vil calúnia,
que culpa aquele tem, que aplica a pena?
Não é o Julgador, é o processo
e a lei, quem nos condena.

Só no Averno os Juízes não recebem
acusação nem prova de outro humano;
aqui todos confessam suas culpas,
não pode haver engano.

(...)
Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5)

Sentimento do eu-lírico. Estrutura da poesia


Tomás António Gonzaga escreveu versos marcados por expressão própria, pela harmonização dos elementos racionais e afetivos e por um leve toque de sensualidade. Segundo Alfredo Bosi, Gonzaga está acima de tudo preocupado em "achar a versão literária mais justa dos seus cuidados". Assim, "a figura de Marília, os amores ainda não realizados e a mágoa da separação entram apenas como 'ocasiões' no cancioneiro de Dirceu", o que diferencia o autor dos seus futuros colegas românticos.

Versos, Estrofes, e a Metrificação

Lira XXIII
16 versos
4 estrofes
tetrassilaba, pentassilaba

Lira I
30 versos
3 estrofes
Díssilaba, trissilaba, tetrassilaba

Lira III
40 versos
5 estrofes
trissilaba, tetrassilaba, pentassilaba

Analise da obra Caramuru (Frei Santa Rita):



Autor: Frei Santa Rita Durão
Obra: Caramuru
A obra enfoca o triunfo de uma figura mítica do passado colonial brasileiro, o qual simboliza também o êxito de um país.
 Não se sabe quase nada sobre este poeta, tudo que se sabe ser verídico nesta história é a relação de Diogo, conhecido como Caramuru, com Catarina Paraguaçu, uma idealista que tinha o poder de antever os confrontos que se desenrolariam futuramente entre os colonizadores e os holandeses. Tudo, além disso, é considerado lenda.
 O autor segue o estilo do autor português Luís Vaz de Camões, um artista do quinhentismo e classicismo.

 Gênero épico (gênero narrativo)
O poema é a principal concretização de textos líricos. No entanto, não há somente poemas líricos, mas, também, poemas épicos. A diferença se mostra no conteúdo dos versos: enquanto versos líricos se prestam à exteriorização e expressão do eu (ou seja, da 1ª pessoa), os versos épicos se prestam à narração de fatos grandiosos de um personagem ou de toda uma nação (ou seja, da 3ª pessoa). Logo, enquanto um poema lírico é pessoal e subjetivo, um poema épico é impessoal e objetivo, como se pode notar na obra Caramuru.

 

TEMA CENTRAL:
O poema fala sobre o descobrimento e conquista da Bahia pelo português Diogo Álvares Correa, após o naufrágio deste no litoral nordestino. Santa Rita Durão narra ainda as aventuras de Diogo, bem como seu envolvimento com as Índias, sobretudo com Paraguaçu, com quem se casa, deixando para trás Moema que se suicida no mar ao ver partir o casal.

ESTRUTURA:
Poema épico, escrito em decassílabos rimados, com divisão em cantos e estrofes. Imita, assim, o esquema tradicional imposto por Camões em Os Lusíadas.


Personagens
Diogo Álvares Correia - o Caramuru
Paraguaçu - filha do cacique Taparica
Gupeva e Sergipe - chefes indígenas
Moema - índia amante de Diogo
                                                                          
Opinião:
 O Caramuru tem os elementos tradicionais do gênero épico: duros trabalhos de um herói, contato de gentes diversas, visão de uma sequência história. A sua linha é camoniana e o intuito foi “compor uma brasilíada”.

    A narrativa é enriquecida com referência a fatos históricos desde o descobrimento até a época do autor, dando-se grande relevo também à matéria descritiva e informativa. É o caso da descrição do Brasil por
Diogo, coroando as tentativas de louvação da terra, prenunciando certos aspectos do nacionalismo romântico.
Características do arcadismo em Caramuru:
> objetividade

> idealização da mulher amada
> valorização da vida no campo
Outras obras:
Pro anmia studiorum instauratione oratio.

Link para download da obra:



Analise Obras Basílio da Gama




TEXTO ANALISADO
Texto — A morte de Lindóia  (Canto IV)
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!

NOME DA OBRA: O uraguai (canto IV)
NOME DO AUTOR : José Basílio da Gama
NOME LITERÁRIO : Gama, Basílio da


PERSONAGENS:  
Lindóia(irmã de Caitutu), Serpente, e Caitutu(guerreiro indígena; irmão de Lindóia);


SENSIBILIDADE PLÁSTICA : Apreende o mundo sensível com verdadeiro prazer dos sentidos. Recria o cenário natural sem que a notação do detalhe prejudique a ordem serena da descrição. 

ESTRUTURA : A pobreza temática impele Basílio da Gama a substituir o modelo camoniano de dez cantos por um poema épico de apenas cinco cantos, constituídos por versos brancos, ou seja, versos sem rimas.

TEMA CENTRAL : Pelo Tratado de Madri, celebrado entre os reis de Portugal e de Espanha, as terras ocupadas pelos jesuítas, no Uruguai, deveriam passar da Espanha a Portugal. Os portugueses ficariam com Sete Povos das Missões e os espanhóis, com a Colônia do Sacramento. Sete Povos das Missões era habitada por índios e dirigida por jesuítas, que organizaram a resistência à pretensão dos portugueses. O poema narra o que foi a luta pela posse da terra, travada em princípios de 1757, exaltando os feitos do General Gomes Freire de Andrade. Basílio da Gama dedica o poema ao irmão do Marquês de Pombal e combate os jesuítas abertamente.


APRECIAÇÃO CRITICA : O poema é escrito em decassílabos brancos, sem divisão em estrofes, mas é possível perceber a sua divisão em partes: proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Abandona a linguagem mitológica, mas ainda adota o maravilhoso, apoiado na mitologia indígena. Foge, assim, ao esquema tradicional, sugerido pelo modelo imposto em língua portuguesa, Os Lusíadas. Por todo o texto, perpassa o propósito de crítica aos jesuítas, que domina a elaboração do poema.
A oposição entre rusticidade e civilização, que anima o Arcadismo, não poderia deixar de favorecer, no Brasil, o advento do índio como tema literário. Assim, apesar da intenção ostensiva de fazer um panfleto anti-jesuítico para obter as graças de Pombal, a análise revela, todavia, que também outros intuitos animavam o poeta, notadamente descrever o conflito entre a ordenação racional da Europa e o primitivismo do índio.
Variedade, fluidez, colorido, movimento, sínteses admiráveis caracterizam os decassílabos do poema, não obstante equilibrados e serenos. Ele será o modelo do decassílabo solto dos românticos.

ANALISE QUINTO CANTO : Por fim, o quinto e último canto, descreve o templo religiosos e a visão do massacre dos índios. Observa-se neste canto que não se busca narrar um fato histórico, mas sim denegrir a imagem dos Jesuítas, o que é notado no decorrer de toda a obra.
Pode ser notada ainda neste canto a maneira como é apresentado o massacre dos índios, no qual se revela claramente o sentimento daqueles que observam a cena. Tal sentimento é puramente lírico. “Oh céus! Que negro horror. Tinha ficado imperfeita a pintura e envolta em sombras”.
            Após o que já foi observado, deve-se ainda levar em conta a forma como foi dividida a obra, sendo apresentado em cinco partes, o que não é próprio de obras épicas, que devem ser divididas em dez. Além do mais, esta obra apresenta um tema pobre e por isso incapaz de sustentar um poema épico.